Partir
Ele não sabia, naquela época, que aquele pequenino aparelho telefônico, que um dia parecia incapaz de oferecer verdade, acabaria sendo o primeiro cenário de uma história que atravessaria nove anos.
Não
sabia que aquele perfil, aquelas combinações intrigantes, aquela conversa
iniciada quase como quem não quer nada, levariam a um palácio de cultura, a um
beijo demorado, suave, curioso, tímido e ao mesmo tempo cheio de vontade.
Não
sabia da exposição de arte, do café, das conversas que pareciam não encontrar
um fim.
Não
sabia da sala de cinema, dos filmes desconhecidos que poderiam se tornar os
melhores de todos simplesmente porque havia alguém sentado ao lado.
Não
sabia das bochechas felizes.
Não
sabia das noites, das músicas, das fotografias, das palavras, das bebidas que
pareciam durar mais porque entre uma coisa e outra havia sempre um beijo.
Não
sabia que aquela pergunta sobre relacionamento, feita dentro de um “forno”,
teria uma resposta que demoraria nove anos para começar a ser compreendida.
E
talvez nem devesse saber.
Afinal,
como poderíamos imaginar naquele momento tudo aquilo que viria?
Como
saberíamos que haveria uma mudança de país?
Que
haveria casas, malas, documentos, planos, dificuldades, conquistas e tantos
acontecimentos importantes divididos entre duas pessoas que, naquele começo,
ainda estavam tentando descobrir se seria cedo demais para chamar aquilo de
alguma coisa?
Nós
não sabíamos.
Mas
fomos ficando.
E, de
alguma maneira, fomos construindo.
Houve
uma parte de nós que sempre funcionou.
A
parceria funcionou.
A vida
compartilhada funcionou.
Estar
junto nos acontecimentos importantes funcionou.
Talvez
tenha sido justamente por isso que demoramos tanto para olhar com atenção para
aquilo que não funcionava.
Porque
enquanto havia uma parte bonita e forte nos segurando, outras partes foram
ficando silenciosas.
A
intimidade que deveria existir e não existia.
A
liberdade de ser casal que parecia nunca chegar completamente.
As
diferenças na forma de desejar, de procurar, de falar.
Eu
querendo abrir as portas e você, muitas vezes, procurando fechá-las.
Eu
tentando compreender o que acontecia dentro de nós enquanto você talvez nem
soubesse como colocar em palavras o que acontecia dentro de você.
E
fomos tentando.
Conversamos.
Brigamos.
Choramos.
Prometemos.
Tentamos
novamente.
E,
depois de tudo, continuamos.
Talvez
porque ainda houvesse amor.
Talvez
porque houvesse história.
Talvez
porque nove anos não sejam uma coisa simples de colocar dentro de uma caixa e
dizer: acabou.
No fim
do ano passado, alguma coisa em mim pediu passagem.
Eu
precisava quebrar aquele silêncio.
Precisava
descobrir se ainda havia alguma coisa para salvar, recuperar ou transformar.
Talvez
precisasse também descobrir quem eu seria fora daquela relação.
E nós
continuamos mais uma vez.
Até
que o tempo seguinte veio rápido demais.
Vieram
descobertas.
Vieram
conversas.
Vieram
pessoas.
Vieram
sinais.
Vieram
mudanças que pareciam acontecer enquanto nós ainda nem havíamos separado as
nossas roupas dentro do mesmo guarda-roupa.
E foi
estranho.
Muito
estranho.
Porque
enquanto uma parte de mim ainda tentava entender o que éramos, eu via você
começando a existir em lugares onde eu havia sentido falta de você por tanto
tempo.
Comunicação.
Desejo.
Vida.
E
talvez a pergunta mais difícil tenha sido:
por
que algumas coisas pareciam possíveis agora e não foram possíveis entre nós?
Eu sei
que também tive minhas contradições.
Sei
que também errei.
Sei
que também desejei coisas que talvez já não encontrasse olhando para você.
E
talvez essa seja uma das verdades mais difíceis de aceitar.
Eu
também queria descobrir.
Você
também queria.
Só não
conseguimos descobrir tudo juntos.
E isso
não transforma nenhum de nós em vilão.
Talvez
apenas transforme a nossa história em uma história humana.
Uma
história que começou com curiosidade.
Que
cresceu com vontade.
Que
encontrou parceria.
Que
encontrou diferenças.
Que
encontrou permanência.
E que
agora encontra um fim.
Ainda
dividimos o mesmo espaço.
E
talvez essa seja a parte mais curiosa de todas.
Porque
já fomos duas pessoas querendo estar juntas.
Agora
somos duas pessoas tentando aprender como estar no mesmo lugar sem continuarmos
sendo aquilo que fomos.
Eu
volto para casa e existe um peso.
Vejo
você querendo desaparecer em silêncio.
E eu,
que sempre quis conversar, entender, perguntar, elaborar, fico diante de uma
porta que não sei mais se devo bater.
E
penso:
é
assim que termina?
Depois
de nove anos?
É
assim que duas pessoas que compartilharam uma vida inteira passam a ser
estranhas uma para a outra?
Será
que não existe uma maneira mais gentil de terminar?
Uma
maneira de ainda conseguirmos sorrir quando nos encontrarmos?
Uma
maneira de lembrar sem que a lembrança imediatamente machuque?
Talvez
exista.
Talvez
não.
Mas eu
gostaria de tentar.
Não
para voltarmos.
Não
para fingirmos que nada aconteceu.
Não
para transformar o fim em uma nova tentativa.
Apenas
porque aquilo que tivemos merece alguma delicadeza.
Em
breve vou começar a separar minhas coisas.
Vou
abrir armários.
Escolher
o que fica.
Escolher
o que vai.
Talvez
eu leve o toca-discos.
O
liquidificador.
A
panela de arroz.
A air
fryer.
Talvez
o ventilador.
Talvez
o aspirador.
Vou
levar algumas coisas porque vou precisar começar de novo em algum lugar.
Mas,
curiosamente, aquilo que mais quero levar não cabe em nenhuma caixa.
Quero
levar o M.H.A.L.
Não o
namorado.
Não
necessariamente o homem que você será daqui para frente.
Mas
aquele que esteve comigo.
O
menino que conheci.
O
homem que cresceu ao meu lado.
A
pessoa que mudou de país comigo.
A
pessoa que esteve presente em momentos que ninguém mais poderia substituir.
Quero
levar você como parte da minha memória.
Como
parte da minha história.
Como
parte de quem eu também me tornei.
E
talvez seja isso que reste quando todo o resto for separado.
Os
móveis.
As
roupas.
Os
livros.
As
chaves.
Os
objetos.
A
casa.
O
silêncio.
Depois
de tudo, talvez permaneça apenas aquilo que não conseguimos colocar em nenhuma
caixa.
Aquilo
que não se divide.
Aquilo
que não se devolve.
Aquilo
que não deixa de ter acontecido.
Nove
anos.
É
muito tempo para dizer simplesmente “acabou”.
Mas
talvez seja pouco diante de tudo aquilo que conseguimos viver.
E, se
esta for realmente a nossa despedida, eu só espero que você nunca precise
apagar o que fomos para conseguir seguir adiante.
Eu
também não quero apagar.
Quero
apenas aprender a lembrar sem precisar voltar.
E
talvez essa seja a última coisa que precisamos aprender juntos:
que
algumas histórias não foram feitas para durar,
mas
permanecem conosco para sempre.
Certaines histoires ne sont pas faites pour durer, mais
elles restent avec nous pour toujours.
E
talvez, depois de tudo,
isso
seja suficiente.
“M”,
" />