Partir

03:34





Ele não sabia, naquela época, que aquele pequenino aparelho telefônico, que um dia parecia incapaz de oferecer verdade, acabaria sendo o primeiro cenário de uma história que atravessaria nove anos.

Não sabia que aquele perfil, aquelas combinações intrigantes, aquela conversa iniciada quase como quem não quer nada, levariam a um palácio de cultura, a um beijo demorado, suave, curioso, tímido e ao mesmo tempo cheio de vontade.

Não sabia da exposição de arte, do café, das conversas que pareciam não encontrar um fim.

Não sabia da sala de cinema, dos filmes desconhecidos que poderiam se tornar os melhores de todos simplesmente porque havia alguém sentado ao lado.

Não sabia das bochechas felizes.

Não sabia das noites, das músicas, das fotografias, das palavras, das bebidas que pareciam durar mais porque entre uma coisa e outra havia sempre um beijo.

Não sabia que aquela pergunta sobre relacionamento, feita dentro de um “forno”, teria uma resposta que demoraria nove anos para começar a ser compreendida.

E talvez nem devesse saber.

Afinal, como poderíamos imaginar naquele momento tudo aquilo que viria?

Como saberíamos que haveria uma mudança de país?

Que haveria casas, malas, documentos, planos, dificuldades, conquistas e tantos acontecimentos importantes divididos entre duas pessoas que, naquele começo, ainda estavam tentando descobrir se seria cedo demais para chamar aquilo de alguma coisa?

Nós não sabíamos.

Mas fomos ficando.

E, de alguma maneira, fomos construindo.

Houve uma parte de nós que sempre funcionou.

A parceria funcionou.

A vida compartilhada funcionou.

Estar junto nos acontecimentos importantes funcionou.

Talvez tenha sido justamente por isso que demoramos tanto para olhar com atenção para aquilo que não funcionava.

Porque enquanto havia uma parte bonita e forte nos segurando, outras partes foram ficando silenciosas.

A intimidade que deveria existir e não existia.

A liberdade de ser casal que parecia nunca chegar completamente.

As diferenças na forma de desejar, de procurar, de falar.

Eu querendo abrir as portas e você, muitas vezes, procurando fechá-las.

Eu tentando compreender o que acontecia dentro de nós enquanto você talvez nem soubesse como colocar em palavras o que acontecia dentro de você.

E fomos tentando.

Conversamos.

Brigamos.

Choramos.

Prometemos.

Tentamos novamente.

E, depois de tudo, continuamos.

Talvez porque ainda houvesse amor.

Talvez porque houvesse história.

Talvez porque nove anos não sejam uma coisa simples de colocar dentro de uma caixa e dizer: acabou.

No fim do ano passado, alguma coisa em mim pediu passagem.

Eu precisava quebrar aquele silêncio.

Precisava descobrir se ainda havia alguma coisa para salvar, recuperar ou transformar.

Talvez precisasse também descobrir quem eu seria fora daquela relação.

E nós continuamos mais uma vez.

Até que o tempo seguinte veio rápido demais.

Vieram descobertas.

Vieram conversas.

Vieram pessoas.

Vieram sinais.

Vieram mudanças que pareciam acontecer enquanto nós ainda nem havíamos separado as nossas roupas dentro do mesmo guarda-roupa.

E foi estranho.

Muito estranho.

Porque enquanto uma parte de mim ainda tentava entender o que éramos, eu via você começando a existir em lugares onde eu havia sentido falta de você por tanto tempo.

Comunicação.

Desejo.

Vida.

E talvez a pergunta mais difícil tenha sido:

por que algumas coisas pareciam possíveis agora e não foram possíveis entre nós?

Eu sei que também tive minhas contradições.

Sei que também errei.

Sei que também desejei coisas que talvez já não encontrasse olhando para você.

E talvez essa seja uma das verdades mais difíceis de aceitar.

Eu também queria descobrir.

Você também queria.

Só não conseguimos descobrir tudo juntos.

E isso não transforma nenhum de nós em vilão.

Talvez apenas transforme a nossa história em uma história humana.

Uma história que começou com curiosidade.

Que cresceu com vontade.

Que encontrou parceria.

Que encontrou diferenças.

Que encontrou permanência.

E que agora encontra um fim.

Ainda dividimos o mesmo espaço.

E talvez essa seja a parte mais curiosa de todas.

Porque já fomos duas pessoas querendo estar juntas.

Agora somos duas pessoas tentando aprender como estar no mesmo lugar sem continuarmos sendo aquilo que fomos.

Eu volto para casa e existe um peso.

Vejo você querendo desaparecer em silêncio.

E eu, que sempre quis conversar, entender, perguntar, elaborar, fico diante de uma porta que não sei mais se devo bater.

E penso:

é assim que termina?

Depois de nove anos?

É assim que duas pessoas que compartilharam uma vida inteira passam a ser estranhas uma para a outra?

Será que não existe uma maneira mais gentil de terminar?

Uma maneira de ainda conseguirmos sorrir quando nos encontrarmos?

Uma maneira de lembrar sem que a lembrança imediatamente machuque?

Talvez exista.

Talvez não.

Mas eu gostaria de tentar.

Não para voltarmos.

Não para fingirmos que nada aconteceu.

Não para transformar o fim em uma nova tentativa.

Apenas porque aquilo que tivemos merece alguma delicadeza.

Em breve vou começar a separar minhas coisas.

Vou abrir armários.

Escolher o que fica.

Escolher o que vai.

Talvez eu leve o toca-discos.

O liquidificador.

A panela de arroz.

A air fryer.

Talvez o ventilador.

Talvez o aspirador.

Vou levar algumas coisas porque vou precisar começar de novo em algum lugar.

Mas, curiosamente, aquilo que mais quero levar não cabe em nenhuma caixa.

Quero levar o M.H.A.L.

Não o namorado.

Não necessariamente o homem que você será daqui para frente.

Mas aquele que esteve comigo.

O menino que conheci.

O homem que cresceu ao meu lado.

A pessoa que mudou de país comigo.

A pessoa que esteve presente em momentos que ninguém mais poderia substituir.

Quero levar você como parte da minha memória.

Como parte da minha história.

Como parte de quem eu também me tornei.

E talvez seja isso que reste quando todo o resto for separado.

Os móveis.

As roupas.

Os livros.

As chaves.

Os objetos.

A casa.

O silêncio.

Depois de tudo, talvez permaneça apenas aquilo que não conseguimos colocar em nenhuma caixa.

Aquilo que não se divide.

Aquilo que não se devolve.

Aquilo que não deixa de ter acontecido.

Nove anos.

É muito tempo para dizer simplesmente “acabou”.

Mas talvez seja pouco diante de tudo aquilo que conseguimos viver.

E, se esta for realmente a nossa despedida, eu só espero que você nunca precise apagar o que fomos para conseguir seguir adiante.

Eu também não quero apagar.

Quero apenas aprender a lembrar sem precisar voltar.

E talvez essa seja a última coisa que precisamos aprender juntos:

que algumas histórias não foram feitas para durar,

mas permanecem conosco para sempre.

Certaines histoires ne sont pas faites pour durer, mais elles restent avec nous pour toujours.

E talvez, depois de tudo,

isso seja suficiente.

“M”,

ainda seria uma má ideia?

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